A difícil tarefa de escolher o repertório

 

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Uma tarefa que eu considero desafiadora na profissão de professora particular de piano é a de fazer a seleção de músicas para o repertório dos alunos. Não é só porque dá trabalho, mas porque é uma atividade complexa mesmo. São muitas variáveis a serem consideradas: o nível do aluno, o objetivo que o professor pretende alcançar ao dar determinada música, o grau de dificuldade técnica e musical da obra, a motivação do aluno, etc. E o professor precisa conhecer muito repertório e estar sempre pesquisando! O X da questão para mim é saber balancear a dificuldade da música com o potencial do aluno. O risco é sempre o de escolher algo fácil demais e ele ficar entediado, ou difícil demais e ele ficar frustrado ou algo que não seja assim tão simples, mas que também não apresente nenhum grande desafio e o aluno ficar estagnado num platô de aprendizado. No final, para uma seleção mais equilibrada a ideia talvez seria ter um repertório com um mix de cada um desses tipos que citei. Gostaria de exemplificar isso com três experiências que tive com 3 alunos diferentes:

Primeiro caso: Easy Play!

Esse aluno aprendeu a música super rápido. Ele achou a música fácil e logo a memorizou! Pelo vídeo é nítido que estava tão “nos dedos” dele  que deu até tempo de fazer graça para a câmera enquanto tocava  😜. Pensando nos prós e contras, o risco seria de fato ele ficar entediado pela falta de desafio. O lado positivo é sempre o de que as crianças (ok, não só as crianças, mas os alunos em geral) gostam de saber que estão progredindo, que estão aprendendo. Eles têm esse feedback imediato quando tocam uma música mais simples do que o nível em que realmente estão. Esse é um fator motivacional poderoso e que traz inúmeros benefícios para os alunos, engorda o repertório, traz sensação de realização e, se o aluno gostar muito da música, melhor ainda pois será uma diversão. Foi isso que aconteceu aqui:

Há uma professora e compositora australiana chamada Elisa Milne, que tem um blog fantástico onde escreve sobre temas relacionados a pedagogia do piano. Ela defende muito essa ideia de trabalhar várias obras consideradas fáceis. Na verdade muitos alunos dela recebem um certificado anual por completarem 100 músicas, sim você não leu errado, eu disse 100 músicas! Esse ano ela fez um desafio a outros professores mundo a fora de trabalharem 40 músicas. Não é uma questão de quantidade versus qualidade, até porque o objetivo final é que as obras estejam todas bem acabadas, refinadas mesmo. A ideia de Milne na verdade é quebrar o paradigma de se trabalhar apenas 1 ou 2 músicas difíceis durante o semestre e isso se resumir a tudo o que o aluno sabe tocar!! Além disso, segundo Milne, outro benefício de dar músicas mais acessíveis são uma melhora substancial da leitura e da compreensão musical. Vejam o link abaixo (em inglês):

https://elissamilne.wordpress.com/2015/09/27/40-piece-challenge-updates/

Segundo caso: Na Medida Certa

Tenho outra aluna adulta que é natural dos Estados Unidos. Ela não tinha nenhuma música brasileira no seu repertório, mas propus a ela de incluirmos uma (a Paulistana no 1 do Santoro) para que ela tivesse essa experiência. A música estava certa para o nível dela, nem fácil demais e nem muito difícil. O desafio nesse caso seria aprender um novo estilo ou motivos rítmicos um pouco mais complexos, ou seja, pontos específicos inerentes a essa obra. O resultado foi muito satisfatório. Embora não tenha sido algo com alto grau de dificuldade,  ela adorou aprender justamente porque era diferente do que já havia tocado, e achou a música linda!

Terceiro caso: Hardcore!!

Esse último caso que gostaria de relatar é algo muito interessante como experiência pra mim. Eu já cometi o erro no passado de dar uma música muito difícil para um aluno baseado no potencial que eu imaginava que ele tinha. Bem, ele tinha condições, mas precisaria aumentar o tempo de estudo e aplicar estratégias específicas para aprender a música (que obviamente trabalhamos em aula). Mas aí vem uma verdade muito importante: uma coisa é você escolher a música e a outra muito diferente é o aluno ter tempo de estudar, querer estudar, saber estudar e abraçar a ideia de estudar mais intensamente. E aí eu paro para pensar: será que vale a pena? Será que esse aluno nesse momento está pronto para isso? Será que ele está motivado o suficiente? Será que não é só vaidade da minha parte como professora querer que ele toque isso?

Bem, embora todas essas questões sejam importantes e devam ser consideradas (e para não deixar ninguém com medo e arriscar),  o caso que quero relatar foi na verdade ao contrário, um aluno iniciante (com exatos 1 anos e 3 meses de aula) que me pediu para aprender a Sonata ao Luar de Beethoven (primeiro mov.). É lógico que eu expliquei com todo o tato que ainda não estava na hora. Para mim estava na cara que seria um caso clássico de abandono da música na metade do caminho por falta de condições musicais e técnicas. Mas o danado do garoto estava tão, mas tão motivado para aprender a música que cada dia lia (com muita dificuldade) uma ou duas linhas e já ía memorizando. A cada semana ele me mostrava um pedaço que havia aprendido. Bem, me rendi a força de vontade e a enorme motivação  do aluno e comecei a trabalhar a música com ele. O resultado está aí no vídeo do recital de final de ano (do ano passado)! Ainda haveria muito mais a ser trabalhado na obra, questões musicais e técnicas, mas foi uma realização e tanto que deixou ambos professora e aluno orgulhosos. Moral da história para a Mirka aprender: um aluno motivado, determinado e disciplinado supera limitações que a própria professora imaginou que não seriam possíveis de serem ultrapassadas!

Queridos amigos e colegas que me acompanham no blog! Para finalizar quero deixar claro que esse post não teve a intenção de dar respostas, quem sou eu para isso!?! O fato de eu ter trazido três casos de sucesso não quer dizer que tenho fórmula pronta, na verdade não tenho fórmula nenhuma e nunca pretendo ter. Essas foram apenas algumas experiências que achei interessantes de serem compartilhadas. Mas a ideia desse artigo é justamente trazer a reflexão sobre essa questão da escolha do repertório, que para mim continua sendo um desafio. Mas quer saber?! Eu gosto de desafios!!  Então vamos lá!

Bom ensino de piano a todos,

Mirka.

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2 opiniões sobre “A difícil tarefa de escolher o repertório

  1. De uns tempos pra cá, eu comecei a me questionar, sobre as músicas de um livro. Em algumas, os alunos ficavam agarrados. Eu pensei em não seguir a sequencia, para não frustar o aluno. Mas, ainda estava em dúvida. Depois deste post, percebi , que posso seguir outras sequencias.
    Obrigada!

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  2. Querida Rosimeire, o mais importante na minha opinião é que o professor use de sabedoria para selecionar o melhor repertório e o grau de dificuldade do mesmo de acordo com o potencial do aluno, mesmo que isso signifique ser mais flexível quanto a sequência das músicas dos métodos! Então, concordo com você! 👍

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